Protagonista
da mais recente movimentação no mercado educacional brasileiro, a
Universidade
Cruzeiro do Sul tornou-se, com a compra da rival Unicid e o aporte que
recebeu de investidores ingleses de R$ 180 milhões, um player mais forte
situado no principal foco desse ambiente no país, que é a Grande São
Paulo. Com
essa aquisição, a instituição passa a planejar também, para os próximos
três
anos, chegar a 50 mil alunos a distância, com polos espalhados por todo o
país
e a possibilidade de ganhos em escala nesta modalidade educacional.
Em entrevista
ao site da revista Ache Seu Curso, Fábio Figueiredo, diretor de Desenvolvimento
do Grupo Cruzeiro do Sul, faz uma análise desse mercado no qual a instituição
está crescendo e revela que a estratégia do grupo é investir no aluno que participa
da ascensão social que vive grande parte dos brasileiros neste momento, mas que
quer uma marca de grife em seu diploma. E faz sua profissão de fé no que chama
de "descomoditização" do setor educacional, para que as instituições e seus
diplomas passem a ter valores diferenciados no mercado.
Ache Seu
Curso: Com a compra da Unicid, a Cruzeiro do Sul amplia seu leque para cursos
de graduação a distância. Por que a instituição não havia investido nesse tipo
de graduação antes?
Fábio
Figureiredo: Já tínhamos pedido o credenciamento. Nosso processo tem mais de
seis anos e durante esse período houve duas ou três mudanças substanciais nas
regras. Não quisemos ir à Justiça, como alguns fizeram, mas isso nos deixou
bastante defasados nessa questão. Com a aquisição da Unicid, que já tem
credenciados 44 polos com autonomia total, a gente espera reduzir um pouco
dessa defasagem. E há mais 22 polos que a Universidade Cruzeiro do Sul já
aprovou e espera homologação do Conselho nas próximas reuniões, aí nós vamos
ter entre 60 e 70 polos. O nosso planejamento é ter 50 mil alunos em três anos,
oferecendo dez a quinze cursos, principalmente em graduação e também em pós. O
portfólio de cursos que ofereceremos não é muito diferente do que o grupo já
tem, mas o volume que você faz numa graduação em número de alunos é
substancialmente superior ao que se consegue na pós.
ASC: A
estrutura que a Unicid já tem em EAD pesou no negócio?
Com certeza
teve um peso significativo. Mas não foi o fator determinante. A questão é que a
Unicid casa com o nosso projeto, ela tem credibilidade de marca, tem
visibilidade no principal mercado do Brasil e tem sinergia geográfica conosco.
Tudo isso foi determinante também, não foi só a questão da EAD.
ASC: E quais
são os projetos agora?
A gente não
quer só fazer volume, queremos oferecer alguma coisa diferenciada. A tecnologia
que temos na Cruzeiro do Sul, e que já está preparada para receber a graduação
a distância, é diferente da tecnologia utilizada pela Unicid. No processo de
integração vamos avaliar qual deles poderá ser o melhor no novo contexto Isso
tudo será decidido na integração, um processo que ainda dura seis meses a um
ano.
ASC: O que os
alunos das duas instituições podem esperar daqui para frente?
Os alunos da
Unicid vão continuar tendo o que tiveram e que vem tendo, aliás a Unicid vai continuar tendo a mesma marca. A
gente não muda a marca, não vai empastelar reunindo tudo numa coisa só. Nosso
projeto é potencializar a marca. Tanto em termos de conteúdo quanto de
tecnologia, são questões a serem decididas no processo de integração.
ASC: Em que
nicho a Cruzeiro do Sul pretende crescer?
O mercado de
educação cresce, mas não na mesma velocidade que cresceu nas duas últimas
décadas. A presencial cresce a cerca de 4%, é quase um crescimento apenas
inercial. A EAD já esteve num crescimento mais acelerado e continua crescendo
ainda num ritmo bom, de dois dígitos ao ano. Então, além de a gente crescer nessa
tendência da EAD, também estamos apostando no que chamamos de descomoditização
da educação superior. Hoje o mercado está extremamente comoditizado, bem mais
do que seria o ideal. Uma boa parte do mercado não diferencia o valor de um
diploma e de outro, estão pesando mais do que seria ideal fatores como
localização e preço. Isso, no nível em que acontece no Brasil, não acontece em
nenhum país desenvolvido do mundo. A gente acredita, e aposta nisso, que esse
mercado vai se descomoditizar. Na medida em que isso acontecer, as pessoas
serão mais críticas para escolher a sua instituição, vão se dispor a pagar um
pouco a mais, mas vão querer alguns benefícios a mais da sua instituição, porque
é uma coisa que ele vai carregar para o resto da vida. Ao contrário do
casamento, em que ex-mulher você não vê mais, diploma é para o resto da vida. É
essa a idéia que achamos que vai prevalecer. Então estamos apostando em marcas
de credibilidade, e vamos buscar sempre indicadores que suportem esse discurso,
junto aos padrões de qualidade do MEC. Não nos interessa o discurso de
qualidade que está vulgarizado hoje.
ASC: Os
indicadores mostram crescimento da classe C, mais volumosa e com menos recursos. Como
entrar nesse mercado compatibilizando qualidade e quantidade?
Não são
caminhos excludentes. Numa análise mais prática, que vá além dos números do
IBGE, eu poderia dizer que as classes A e B, o topo da pirâmide, são atendidos
por aquelas universidades que o mercado considera que são tradicionais, as
públicas, as católicas, essa costuma ser a opinião do mercado. Nossa pretensão
não é disputar esse segmento. O fato do nosso projeto ter um discurso diferente
é porque a gente quer estar eventualmente ali na mesma camada que está
ascendendo socialmente, mas que em vez de pagar 350 reais para estudar do lado
de casa ou na porta do metrô, ele se disponha a pagar 100 a 150 reais a mais,
não são mil reais a mais, para ter uma formação notadamente melhor, numa
instituição de melhor qualidade e de melhor conteúdo. É uma questão de
custo-benefício. Não vamos competir por preço na base da pirâmide, mas sim
optar por esse aluno que tem 400 reais, mas também tem 500 reais e que, em vez
de optar por comprar um celular novo, vai
investir mais cem reais por mês na educação. Procuramos aquele aluno que tem
uma preocupação um pouco maior, que se esforça mais, que não compra qualquer
coisa. Que não quer só um diploma para subir uma escala no plano de carreira da
empresa. É aí que a gente quer convencer o mercado e é nesse nicho que a gente
vai atuar.
ASC: Como o Sr.
vê esse cenário recente de aquisições no mercado de educação?
É natural,
esse é um fenômeno que acontece em determinado momento em qualquer segmento. Agora
é o momento da educação, que é um setor novo, tem 40 ou 50 anos no Brasil como
empresas e como mercado, e é uma tendência. Acho que ainda vai durar um tempo
até isso se estabilizar, mais uns quatro ou cinco anos, numa intensidade
equivalente.
ASC: E nesse
cenário a Cruzeiro do Sul crescerá como?
Acabamos de
fazer essa operação com a Actis (a compra da Unicid), para não deixar de surfar
nessa onda que é a de consolidação. Já vínhamos realizando isso de alguns anos
para cá, mas claro que com o aporte de capital e com o conhecimento que o
parceiro financeiro traz a gente ganha velocidade e aproach. Esse foi só o
primeiro passo. Para os próximos dois ou três anos temos planos consistentes e ambiciosos de
crescimento, sempre nesse sentido, ou seja, não é qualquer instituição,
qualquer lugar, qualquer marca ou qualquer modalidade de educação. A gente faz
exatamente o que quer e em vez de prospectar vinte instituições ao mesmo tempo
para fazer oito ou dez negócios, a gente prospecta quatro ou cinco para fazer
uma ou duas, porque são escolhas bem criteriosas, que se encaixam muito bem no
nosso projeto.
ASC: E para
onde cresce?
Cresce
exclusivamente com marcas relevantes no mercado, instituições de determinado
porte mínimo, que tenham credibilidade e imagem no mercado, até porque as
marcas serão sempre mantidas. Elas têm uma identidade operacional, uma
identidade de propósito, mas cada uma terá sua característica própria e o seu
nome. Terá identidade visual, seu logo, mas as marcas permanecem as mesmas. Tem
que ser cidades que comportem o nosso projeto de população e renda, e que tenha
credibilidade de marca.
Veja matéria sobre a compra da Unicid pela Cruzeiro do Sul aqui.
Matéria publicada no portal www.acheseucurso.com.br.