Cruzeiro do Sul faz aposta na "descomoditização" do mercado educacional

Plano da instituição, que acaba de comprar a Unicid, é investir em marca e ter 50 mil alunos a distância em três anos, diz Fábio Figueiredo

25/01/2012

Da revista Ache Seu Curso

     Protagonista da mais recente movimentação no mercado educacional brasileiro, a Universidade Cruzeiro do Sul tornou-se, com a compra da rival Unicid e o aporte que recebeu de investidores ingleses de R$ 180 milhões, um player mais forte situado no principal foco desse ambiente no país, que é a Grande São Paulo. Com essa aquisição, a instituição passa a planejar também, para os próximos três anos, chegar a 50 mil alunos a distância, com polos espalhados por todo o país e a possibilidade de ganhos em escala nesta modalidade educacional.

   Em entrevista ao site da revista Ache Seu Curso, Fábio Figueiredo, diretor de Desenvolvimento do Grupo Cruzeiro do Sul, faz uma análise desse mercado no qual a instituição está crescendo e revela que a estratégia do grupo é investir no aluno que participa da ascensão social que vive grande parte dos brasileiros neste momento, mas que quer uma marca de grife em seu diploma. E faz sua profissão de fé no que chama de "descomoditização" do setor educacional, para que as instituições e seus diplomas passem a ter valores diferenciados no mercado.

Ache Seu Curso: Com a compra da Unicid, a Cruzeiro do Sul amplia seu leque para cursos de graduação a distância. Por que a instituição não havia investido nesse tipo de graduação antes?

Fábio Figureiredo: Já tínhamos pedido o credenciamento. Nosso processo tem mais de seis anos e durante esse período houve duas ou três mudanças substanciais nas regras. Não quisemos ir à Justiça, como alguns fizeram, mas isso nos deixou bastante defasados nessa questão. Com a aquisição da Unicid, que já tem credenciados 44 polos com autonomia total, a gente espera reduzir um pouco dessa defasagem. E há mais 22 polos que a Universidade Cruzeiro do Sul já aprovou e espera homologação do Conselho nas próximas reuniões, aí nós vamos ter entre 60 e 70 polos. O nosso planejamento é ter 50 mil alunos em três anos, oferecendo dez a quinze cursos, principalmente em graduação e também em pós. O portfólio de cursos que ofereceremos não é muito diferente do que o grupo já tem, mas o volume que você faz numa graduação em número de alunos é substancialmente superior ao que se consegue na pós.

ASC: A estrutura que a Unicid já tem em EAD pesou no negócio?

Com certeza teve um peso significativo. Mas não foi o fator determinante. A questão é que a Unicid casa com o nosso projeto, ela tem credibilidade de marca, tem visibilidade no principal mercado do Brasil e tem sinergia geográfica conosco. Tudo isso foi determinante também, não foi só a questão da EAD.

ASC: E quais são os projetos agora?

A gente não quer só fazer volume, queremos oferecer alguma coisa diferenciada. A tecnologia que temos na Cruzeiro do Sul, e que já está preparada para receber a graduação a distância, é diferente da tecnologia utilizada pela Unicid. No processo de integração vamos avaliar qual deles poderá ser o melhor no novo contexto Isso tudo será decidido na integração, um processo que ainda dura seis meses a um ano.

ASC: O que os alunos das duas instituições podem esperar daqui para frente?

Os alunos da Unicid vão continuar tendo o que tiveram e que vem tendo, aliás  a Unicid vai continuar tendo a mesma marca. A gente não muda a marca, não vai empastelar reunindo tudo numa coisa só. Nosso projeto é potencializar a marca. Tanto em termos de conteúdo quanto de tecnologia, são questões a serem decididas no processo de integração.

ASC: Em que nicho a Cruzeiro do Sul pretende crescer?

O mercado de educação cresce, mas não na mesma velocidade que cresceu nas duas últimas décadas. A presencial cresce a cerca de 4%, é quase um crescimento apenas inercial. A EAD já esteve num crescimento mais acelerado e continua crescendo ainda num ritmo bom, de dois dígitos ao ano. Então, além de a gente crescer nessa tendência da EAD, também estamos apostando no que chamamos de descomoditização da educação superior. Hoje o mercado está extremamente comoditizado, bem mais do que seria o ideal. Uma boa parte do mercado não diferencia o valor de um diploma e de outro, estão pesando mais do que seria ideal fatores como localização e preço. Isso, no nível em que acontece no Brasil, não acontece em nenhum país desenvolvido do mundo. A gente acredita, e aposta nisso, que esse mercado vai se descomoditizar. Na medida em que isso acontecer, as pessoas serão mais críticas para escolher a sua instituição, vão se dispor a pagar um pouco a mais, mas vão querer alguns benefícios a mais da sua instituição, porque é uma coisa que ele vai carregar para o resto da vida. Ao contrário do casamento, em que ex-mulher você não vê mais, diploma é para o resto da vida. É essa a idéia que achamos que vai prevalecer. Então estamos apostando em marcas de credibilidade, e vamos buscar sempre indicadores que suportem esse discurso, junto aos padrões de qualidade do MEC. Não nos interessa o discurso de qualidade que está vulgarizado hoje.

ASC: Os indicadores mostram crescimento da classe C, mais volumosa e com menos recursos. Como entrar nesse mercado compatibilizando qualidade e quantidade?

Não são caminhos excludentes. Numa análise mais prática, que vá além dos números do IBGE, eu poderia dizer que as classes A e B, o topo da pirâmide, são atendidos por aquelas universidades que o mercado considera que são tradicionais, as públicas, as católicas, essa costuma ser a opinião do mercado. Nossa pretensão não é disputar esse segmento. O fato do nosso projeto ter um discurso diferente é porque a gente quer estar eventualmente ali na mesma camada que está ascendendo socialmente, mas que em vez de pagar 350 reais para estudar do lado de casa ou na porta do metrô, ele se disponha a pagar 100 a 150 reais a mais, não são mil reais a mais, para ter uma formação notadamente melhor, numa instituição de melhor qualidade e de melhor conteúdo. É uma questão de custo-benefício. Não vamos competir por preço na base da pirâmide, mas sim optar por esse aluno que tem 400 reais, mas também tem 500 reais e que, em vez de optar por comprar um celular novo,  vai investir mais cem reais por mês na educação. Procuramos aquele aluno que tem uma preocupação um pouco maior, que se esforça mais, que não compra qualquer coisa. Que não quer só um diploma para subir uma escala no plano de carreira da empresa. É aí que a gente quer convencer o mercado e é nesse nicho que a gente vai atuar.

ASC: Como o Sr. vê esse cenário recente de aquisições no mercado de educação?

É natural, esse é um fenômeno que acontece em determinado momento em qualquer segmento. Agora é o momento da educação, que é um setor novo, tem 40 ou 50 anos no Brasil como empresas e como mercado, e é uma tendência. Acho que ainda vai durar um tempo até isso se estabilizar, mais uns quatro ou cinco anos, numa intensidade equivalente.

ASC: E nesse cenário a Cruzeiro do Sul crescerá como?

Acabamos de fazer essa operação com a Actis (a compra da Unicid), para não deixar de surfar nessa onda que é a de consolidação. Já vínhamos realizando isso de alguns anos para cá, mas claro que com o aporte de capital e com o conhecimento que o parceiro financeiro traz a gente ganha velocidade e aproach. Esse foi só o primeiro passo. Para os próximos dois ou três anos  temos planos consistentes e ambiciosos de crescimento, sempre nesse sentido, ou seja, não é qualquer instituição, qualquer lugar, qualquer marca ou qualquer modalidade de educação. A gente faz exatamente o que quer e em vez de prospectar vinte instituições ao mesmo tempo para fazer oito ou dez negócios, a gente prospecta quatro ou cinco para fazer uma ou duas, porque são escolhas bem criteriosas, que se encaixam muito bem no nosso projeto.

ASC: E para onde cresce?

Cresce exclusivamente com marcas relevantes no mercado, instituições de determinado porte mínimo, que tenham credibilidade e imagem no mercado, até porque as marcas serão sempre mantidas. Elas têm uma identidade operacional, uma identidade de propósito, mas cada uma terá sua característica própria e o seu nome. Terá identidade visual, seu logo, mas as marcas permanecem as mesmas. Tem que ser cidades que comportem o nosso projeto de população e renda, e que tenha credibilidade de marca.

Veja matéria sobre a compra da Unicid pela Cruzeiro do Sul aqui.

Matéria publicada no portal www.acheseucurso.com.br.

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